"Querido eu...
Estás tão diferente... Cresceste, e muito... Estás maior, na
altura e na maturidade, sem dúvida. Mas dentro de ti ainda existe aquela
criança, que quer sair de si e gritar bem alto tudo o que quer e tudo o que
pensa. Por vezes essa mesma parte de ti sussurra-te ao do ouvido 'Fala, diz o
que queres. Pula, brinca, sê alegre. Não penses na tristeza... O que é isso? Se
existem as gomas?'. Uma outra parte diz porém 'Acorda! Já viste o que andas a
fazer? Pensas que és o quê, uma criança? As tuas acções têm intenções, que
mesmo que sejam as melhores, têm as suas consequências... E acredita, o mundo ás
vezes pode parecer pequeno, mas não é por isso que gira á tua volta!'
Mudaste nestes anos. Aqueles fundos de garrafa que tapavam o
teu olhar para a vida, desapareceram. Aqueles que transformavam uma miúda
tímida mas alegre, numa miúda apagada, sem vida...
O teu olhar, parece que fala, por o que parece... Sempre
húmido de emoção, seja boa ou má, sempre diferente.
O teu sorriso, não é bonito, nem é feio... É diferente. Mas
é um orgulho, de herança do meu querido pai. Um homem alegre e sempre feliz com
a vida. Por isso, para mim é uma marca. Uma marca da alegria dele em mim.
O teu corpo, no fundo, como tudo, não é igual. Por vezes
mais delgado, por outras mais rechonchudo, mas mesmo assim, com muito esforço e
dedicação a ele, não o consegues amar verdadeiramente como devias. Nunca
fizeste nada que o magoasse, nada disso, mas para ti a beleza nele... Está nos
olhos de quem a quer ver, que os teus parecem não ver.
Gostas de ti? Muitas das vezes não, mas o teu reflexo no
espelho não deixa ver a parte que talvez mais cultives, aquela parte que te faz
brilhar só um pouco. A que te faz no fundo ser diferente e especial para
aqueles que gostam de ti. O teu interior.
Neste reflexo sobressai uma coisa em ti. Talvez a alegria, o
cansaço, o amor, a ternura, mas por vezes uma suave saudade, o orgulho...
Saudade de quem era, mas de orgulho na mulher que me tornei.
Com carinho,
De ti própria ;)


